13 de dezembro de 2010

Maldita Felicidade

Em 2002 o filme “Jornada da Alma” (The Soul Keeper) contou a história de Sabina Spielerein, russa histérica internada num manicômio em Zurique onde o Dr. Carl Jung começava a colocar em prática as teorias psicanalíticas que desenvolvia juntamente com outro grande doutor e seu mestre, Sigmund Freud.

A Psicologia Analítica elaborada por Jung leva em conta não só aspectos conscientes e seus reflexos na atitude dos pacientes, mas também aspectos do inconsciente como sonhos, intuições e outros fenômenos que nos dão pistas de onde encontrar as causas mais profundas para as diversas psicoses e neuroses que todos nós (sim, todos nós) temos.

Não sou psicólogo e nem tenho a pretensão de, nessas poucas linhas, abordar a densa e profunda obra de Jung, mas, assistindo ao filme, vários aspectos, principalmente o fato de ela ter sido tão revolucionária, me levaram a escrevê-las.

A grande novidade do tratamento proposto por Jung (lembrem-se, segundo essa infidedigna fonte que vos escreve) foi a aproximação entre médico e paciente. Para acessar os arquivos inconscientes de Sabina Spielerein, o Dr. Jung gasta seu tempo, atenção e cuidados com a paciente, até que ela desmonte suas defesas naturais, escaldadas por um histórico de maus tratos e, como o próprio Jung se refere, “métodos medievais” ainda aplicados naquele início de século XX. Em uma inusitada cena, o médico leva sua paciente a um luxuoso restaurante e a alimenta dando-lhe de comer à boca, pois, no hospital, ela se recusava. Nessa busca, o sensível médico acaba por apaixonar-se pela paciente, desenvolvendo um relacionamento irracional e incontrolável por ela.

A grande reviravolta do filme é quando, curada de sua condição de interna de hospício, Sabina, encontrando-se secretamente com o médico que é casado, leva-o a questionar a proximidade com sua própria esposa. Ele se contorce para admitir essa irracionalidade dentro de sua própria vida e corrói-se em dúvida e culpa. Em outra cena brilhante, Jung e Sabina estão numa apresentação de ópera e ele, sem mais nem menos, deixa o teatro em prantos. Ela o segue e pergunta o que há, ao que ele responde debulhando-se em lágrimas “Estou feliz. Maldita felicidade”.
          
Investigando a irracionalidade dos outros, Jung fora pego de surpresa pela sua própria, cheia de complexos e demônios com os quais ele mesmo não sabe lidar. O filme usa a história até certo ponto feliz de Sabina (que, apesar do fim trágico, consegue reerguer-se da condição esquizofrênica e ser respeitada em seu trabalho) para mostrar um Jung doente de frustrações, culpas e medos. Um médico respeitado por fazer seus pacientes lidarem com suas irracionalidades, incentivando-os a expondo-las como diferencial de personalidade, lutando contra a sua própria, negada e reprimida.

Tendo assistido ao filme, é de se concluir que, uma vez sendo nosso inconsciente a verdadeira morada da nossa personalidade, onde estão muitas das nossas feridas, mas que também encerra suas curas, devemos estar mais atentos à maneira como reagimos às situações em que nos metemos para que nossas decisões e atitudes reflitam quem somos, não quem gostaríamos de ser ou quem os outros esperam que sejamos. Mas, se mesmo Jung, dono da idéia e codificador da teoria, pode, como mostra o filme, escorregar e sofrer entre suas vontades e seus compromissos, quem somos nós, pobres mortais, para não escorregar e sofrer?

PS: Para quem gosta, recomendo uma breve leitura sobre a obra de Jung AQUI . Sobre dois poetas russos citados no filme: Vladimir Maiakovsky e Boris Pasternak. E sobre as pinturas de Gustav Klimt AQUI.

10 de dezembro de 2010

Prólogo

Era uma vez um rapaz que queria escrever um romance medieval. Sentou-se e escreveu este prólogo.


O vento soprava frio vindo da janela aberta do quarto. As cortinas de seda flutuavam no escuro como algas brancas no fundo de um lago. Nada daquela noite calma prenunciava o que estava por vir. Se não fossem as luzes brilhantes ao longe, a paisagem seria tão calma e deserta como sempre. A fumaça que subia das fogueiras tremulava rumo à lua e as chamas que iluminavam e aqueciam soldados e mercenários, de longe, pareciam vagalumes num prado alagado.
As sombras dos sitiantes se moviam como um organismo único, não se conseguia distinguir, daquela distância, onde começava e onde acabava o exército. Nesse cenário sombrio, podia localizar somente a tenda vermelha e iluminada do Rei.
Há semanas não havia movimento de qualquer parte. Meus mensageiros, que partiam em segredo levando pedidos de socorro aos aliados, nunca chegavam aos seus destinos e voltavam sempre aos poucos. Suas cabeças sempre primeiro. Meus soldados enclausurados como ratos já podiam pressentir o fim trágico que se desenhava. Ao longe, nosso rebanho agora alimentava o inimigo, que bebia de nossa água e envenenava a corrente do rio que corta a cidade.
Eu me perguntava quanto tempo mais meus homens iriam agüentar. Já estouravam os primeiros motins dentro das guarnições mais baixas. Graças ao Nosso Senhor os superiores abafaram a revolta. Mas até quando também esses agüentariam? Há dias eu rezava para que um milagre acontecesse. Que São Miguel Arcanjo atendesse ao meu clamor e cravasse sua lâmina de fogo no peito de cada inimigo. No entanto, a única coisa que vinha dos céus era uma chuva ocasional para enchermos nossos baldes e cantis.
Saí do meu transe quando um pajem adentrou o quarto.
- Meu Senhor, o Conselho está reunido no salão principal. Estão aguardando Vossa Majestade.
Mirei-o com desânimo – “Que aguardem mais um pouco” - Fechei as grades de madeira da janela e só percebi a inutilidade do meu ato quando vesti a túnica e cheguei ao corredor. Apesar de ricamente decorado, sentia que tapeçarias e pratarias exibiam uma volatilidade e presença desnecessárias. Quantos arqueiros poderia eu manter com o ouro daquele busto? Quantos cavalos eu alimentaria com os fios daquele tapete? Tudo iria queimar no fim.
Entreabri a porta do salão devagar e fui examinando calmamente os presentes. Luc de Gussy não ostentava a barriga dos tempos de paz, a barba de Roberto de Messina crescia volumosa, as roupas do outrora alinhado Conde de Goulac pareciam jogadas sobre seu corpo. E mais ninguém. Que queria eu quando mandei reunir o conselho? Talvez olhar pela última vez nos olhos de meus aliados, mas às vezes perdia a conta dos que ficaram nos campos vermelhos da batalha.
Tomei fôlego e, enfim, abri a porta. A conversa que ia alta cessou automaticamente, enquanto os três marechais tentavam sustentar os olhares em mim. Arrastando o passo, neguei-lhes o cumprimento e joguei-me pesadamente no trono. Após as reverências costumeiras, que agora me entediavam, eles começaram.
– Já faz doze dias, meu Senhor, que as tropas aguardam por ordens. Depois do último motim, os soldados ficam cada vez mais inquietos.
- Mande-os plantar verduras – disse.
Sobressaltado, Roberto de Messina calou-se e olhou surpreso para os outros convivas. Então, o Conde de Goulac tomou a voz.
- Meu Senhor, alguns soldados disseram ter visto mulheres saindo da cidade para terem relações com os inimigos. Alguns de nossos aldeões já juraram fidelidade a ele! Temos que fazer alguma coisa!
- O mesmo, provavelmente – disse eu esticando a mão para o copo de vinho que me era oferecido pelo pajem. – Calem-se – falei sem forças – não vêem que não temos mais alternativas? O inimigo nos cerca há semanas. Que resistência temos a oferecer? Em pouco tempo estaremos queimando as flechas de nossos arqueiros para nos mantermos aquecidos à noite! Na verdade, nem sei por que reuni o Conselho... ou talvez tenha medo de admitir que fomos derrotados...

Ao simples som dessa última palavra, os três guerreiros estremeceram. Eram todos experientes nas batalhas, nos ataques, nos movimentos de defesa e aniquilação. Mas nenhum deles nunca tinha sofrido um cerco. Era de se admirar a coragem desses homens, mas em meu estado de espírito, não me enganava mais com coragem e bravura. Agora não passavam de romance e canções de bardos.
- Talvez o Senhor tenha razão, Majestade – disse Luc de Gussy quebrando o silêncio que se arrastava – Seria melhor entregarmos a cidade e evitarmos o confronto. A superioridade de nosso inimigo é patente! Acredito que já poderiam ter entrado na cidade, se quisessem. Mas a sua crueldade é tanta que preferem degolar-nos magros para que sangremos pouco e rápido.
- Nunca! – Antecipou Roberto – Não podemos nos curvar diante de nosso inimigo! Morreremos de qualquer forma... ou você acha que seríamos libertados para vagar e tentar juntar um outro exército. E mesmo se ficássemos livres, quem se disporia a lutar ao lado de desonrados!? Majestade, – disse ele após engolir seco – já que não temos escolha, devíamos armar nosso exército e atacá-los frontalmente, esta noite! Pelo menos assim nossos nomes não ficariam sujos na memória dos tempos!
- Em verdade... suicídio também é uma opção... – disse eu irônico – Não sou um guerreiro, Roberto. A vitória para mim sempre foi a paz. Agora que não vejo mais saída, minhas energias se esvaem como a areia de uma ampulheta, esperando a hora de cair o último grão.
Tinha vontade de chorar, mas minhas lágrimas secaram há tempos. Tinha medo de morrer, mas alguma coisa me impedia de engolir arsênico ou cravar uma adaga no próprio peito. Se pelo menos meu pai estivesse aqui... – pensei.

Depois escreveu isso AQUI.
Depois isso AQUI.
E, finalmente, porém sem ser o fim, AQUI.
E pediu que não rissem do excesso de reticências e dos erros de português.

8 de dezembro de 2010

Obrigados


Te agradeço a firmeza de propósito
O exemplo cáustico, o abraço tenro
Te agradeço pelo apoio pleno
Teu olhar ingênuo, pelo que foi dito
Te agradeço de todo peito aflito
Do pedestal que desço, o degrau vencido
Te agradeço pela franca estada
E por ter permanecido
Pela lucidez e pelo pranto
Pela dor e o desencanto, pelo sangue invisível
Os cabelos brancos
Por todos esses solavancos do meu ser corruptível
Pelos cristais quebrados que eu pensava diamantes
Pelo peito arfante e encurralado
A mão estendida, a faca e a ferida
Que sangra ainda nesse obrigado

***

Te agradeço pela hora errada
Pelas mil palavras certas
Pela porta cerrada e janelas abertas
Pela suposta ordem e presunçoso equilíbrio
Pelo brilho ainda que fugaz
Pelo caos e a tempestade a se formar
Te agradeço pelo sonho e por antever o caminho
Que mesmo sozinho tenho estado a trilhar
Te agradeço o silêncio
Que nos facilita, verdade infinita a nos amparar
Se me torno eloqüente é como compenso
O vazio de um mundo a se transmutar

***

Te agradeço por ter vindo a mim
Em gritos e impropérios
Num esforço subrenatural
Te agradeço o susto
E as palavras corrosivas do seu ideal
Te agradeço o despertar
Mesmo esse que requer meu suor
O caminho foi escolhido
E os passos que dou para te fazer melhor
Te agradeço a oportunidade
Que tua ira me dá de renovação
Vou pagar meus pecados
Que tu testemunhas a pleno pulmão
Te agradeço menos pela forma e mais pelo conteúdo
Que me deu pistas de como evitar
O mal que se desprende de tudo
Tem tudo em si mesmo para bem terminar

***

Te agradeço o sorriso fácil
Que é meu e que te empresto
Te agradeço as perguntas simples
Cujas respostas não contesto
Te agradeço o olhar entregue
E o murmúrio noturno que me faz insone
As primeiras palavras, não há quem negue
A origem que levas no nome
Te agradeço o abraço frágil no qual não caibo
Do beijo estalado na ponta dos lábios
Ao beiço lacrimoso na hora que dorme
Te agradeço esse amor enorme
Que só desprende de você
Agradeço a bendita hora em que vieste
Na pequenina forma de bebê
E pela magia em torno de ti
De encher meus olhos com água salgada
Te agradeço por ser quem tu és
Sem passado, só presentes e mais nada

6 de dezembro de 2010

Eles não tinham uma música

Eles não sabiam que livros haviam lido em comum muito menos discutido sobre os clássicos. Ela não sabia dos doze níveis do Inferno nem ele conhecia os efeitos do soma. Ele nunca tomou rivotril e ela nunca cheirou loló. Eles não sabiam as bandas preferidas um do outro nem tinham compartilhado um fone de ouvido. Eles não tinham uma música.

Ele nunca soube se o colchão dela era macio ou duro, mas sabia de suas dores nas costas. Ela nunca soube quantas camisas ele tinha, apesar de saber que gostava de usá-las para dentro da calça. Ele nunca soube qual era cor preferida dela, apesar de notar o arco-íris nas suas unhas. Ela nunca soube qual era o nome do perfume dele, apesar das horas perdidas sentido-o exalar de seus antebraços.

Ele nunca soube como ela dirigia, apesar de saber que ela tinha saudades do carro. Ela nunca o vira usando óculos e depois duvidou que seus olhos verdes fossem naturais sob as lentes de contato. Eles nunca pegaram ônibus ou metrô juntos. Ela nunca o viu tomar café. Ele nunca a viu andando de bicicleta.

Eles nunca discutiram um filme que acabaram de assistir nem ela o tinha visto parar o filme chamando atenção para um movimento de câmera. Ele nunca a viu escrever comentários no livro que estava lendo. Ela nunca o viu gritar de dor nem ele a viu chorar de raiva. Eles nunca tinham visto juntos o sol nascer ou se pôr. Nunca tomaram café-da-manhã, nem vinho, nem vodka. Eles nunca tinham dançado nem se jogado no mar vestidos de madrugada. Ele nunca havia pedido trocados a ela para comprar chiclete.

Ela nunca treinou técnicas de pompoar com ele. Ele nunca a tinha feito perder o controle. Ele nunca a tinha visto de cabelos presos ou azuis ou naturais. Ela nunca o tinha visto inventar músicas com seu nome no refrão.

E ainda assim, eles se despediam como se já tivessem descoberto tudo um do outro. E ainda assim eles calavam a dor e seguiam em sentidos opostos fechando as portas atrás de si sem cliques ou rangidos.

Eles não tinham uma música. Talvez por isso tenham se despedido em silêncio.

30 de novembro de 2010

Flor de vaso

Quem te colhe, flor de vaso
que não sangre em teus espinhos
disponíveis, caso a caso
desabrochando-se em carinhos

Sob a nesga do primeiro fogo
colore sonhos de aurora
Estica-se na janela, em gozo
a quem preso a ti, devora

És tudo e nada ao mesmo tempo
de verve e obviedade
adula em seiva rubra o ressentimento
das mais belas crueldades

Fez luz nova brilhar no prado
que expôs em cor e som
aquele velho arroio questionado
sem marcas de mordida ou batom

Uma vez doce e singela
inocula teu veneno em borbotões
teus espinhos, caninos em assalto
vens do alto, vampira de emoções

Eram óbvios os destinos
Teu e meu em paralelos
dos beijos que sacudiram sinos
restam os golpes dos martelos

18 de novembro de 2010

Antes da catraca

Este deveria ter sido o primeiro post deste blog. Mas como eu só escrevi ele ontem, fica hoje o registro.

Antes da catraca

Sempre andei de ônibus e sentava antes da catraca, na época que ainda se entrava nos ônibus pela parte de trás, só para ficar observando as pessoas. Tentava imaginar de onde vinham e pra onde iam. Sentia-me um tipo de Sherlock Holmes adivinhando os pontos aonde cada passageiro saltaria.


Mas isso acabou depois que fui assaltado. Os assaltos a ônibus eram comuns, mas, geralmente, os que sentavam antes da catraca eram poupados. Sentar antes da catraca dava às pessoas um ar de marginalidade, de revolta, o trocador achava que a gente ia dar calote. Essa suposta marginalidade nos aproximava dos verdadeiros marginais em ação catando os pertences dos integrados pagadores de passagem lá na frente. Mas, apesar de ter incorporado essa aura marginal à minha atitude, de nada me valeu nesse dia e, graças a deus, consegui, com o tempo, diminuir minha dependência do transporte público.

Viajar antes da catraca também era o fenótipo de uma característica que carrego em meu DNA: a introspecção. Lá de trás conseguia ver tudo sem ser visto e isso me dá outra característica: a possibilidade de ver em perspectiva. Sou bom em me colocar no lugar dos outros e, talvez pelos dois motivos, seja impelido a escrever.

Por muito tempo preferi a poesia que era a realização do “ver sem ser visto”. Mas, aos poucos, a prosa vem me cativando e, através dos contos, ponho em ação essa veia documental destilada nesses pequenos textos cujo estilo, se tiverem paciência e altruísmo suficientes, constatarão nas descrições, às vezes exageradas, foco principal do meu aprimoramento, e nas metáforas inusitadas.

Não domino técnicas nem trago ainda grande bagagem literária nas costas, mas tenho boas intenções. Espero que, um dia, alguma frase que eu venha a escrever ou tenha já escrito provoque uma lágrima ou um sorriso, um susto ou uma reflexão, enjôo ou júbilo. Mas, enquanto isso não acontece, estarei aqui, atrás da catraca, absorvendo e escrevendo até onde esse ônibus me levar.

15 de novembro de 2010

O comprometimento do salmão

Estava pegando no sono. Meu pé esquerdo sentia o fluxo do rio onde estava pela metade, trazendo da ponta dos dedos uma sensação de pura paz. Não havia barulhos senão o murmurar baixo como um sussurro da água desfazendo-se em espuma contra uma pedra maior e o chacoalhar das copas das árvores tão altas que me desafiavam a visão quase desfalecida.

Acompanhava com olhos semicerrados a água em seu ir sem vir, numa única e decidida direção, para o baixo. Sem sucesso tentava carregar meu pé que, preso a mim, opunha uma resistência desleal. Sucesso, sim, tinha ao levar o leito, as pequenas pedras e os peixes que, dispondo da própria correnteza do rio, deixavam-se levar até não sei onde, o lugar onde os peixes preferem viver.

Porém, perto da outra margem havia um que lutava contra a força do rio. Era um salmão grande e vermelho. Via-se que lutava contra a correnteza sem, no entanto, conseguir sair do lugar. Se os tivesse, trincaria dentes e contrairia a fronte, num daqueles sinais humanos de esforço. Mas como peixe era, denotava outros sinais que qualquer observador, seja acostumado com o fenômeno, seja admirado com o inusitado, entenderia e lhe emprestaria um adjetivo humano qualquer para descrever essa luta, convenhamos desumana.

Acompanhei o peixe até o estertor das forças o que, para minha surpresa, não aconteceu uma, mas três ou quatro vezes. Era persistente, o danado. Quando eu achava que o rio havia vencido, varrendo o peixe para detrás de uma pedra, eis que após alguns minutos de descanso, voltava ele a sacolejar sua espinha rio acima.

Já desfeito de minha intenção de dormir e retirando finalmente meu pé de dentro daquele campo de batalha, fiquei acompanhando rio e peixe a se digladiarem refletindo sobre o que levaria o peixe a subir tamanha correnteza e, pior, o que levaria o rio a dificultar-lhe tanto o trabalho.

Rio e peixe são coisas que, diferente da gente, não se sentam à margem das cidades a refletir sobre as desventuras dos humanos em que nela vivem. Se o fizessem, porém, talvez não tivessem a mesma dificuldade que tive para dormir ao observar esta luta que descrevo.

Pois bem, refletia sobre as dificuldades de um e de outro e me vi sobre a pressão de julgar-lhes não as intenções, pois que são irracionais ambos e delas se privam, pelo menos até onde a ciência contemporânea entende, mas os instintos que a natureza põe em conflito. Mas como o rio em si não encerra, exceto em poesia, nem intenção nem instinto, foquemos no peixe a reflexão e deixemos o rio seguir seu curso.

O peixe sabe que sua cria tem mais chance de sobreviver se estiver numa calma lagoa, cercada como um forte-apache, sem predadores. Por isso, recorre a ela todo ano, pelo menos uma vez por ano, para procriar e, nesse período, se mais uma vez compararmos peixes e homens, o que se viria naquela lagoa seria um grande bacanal. Muitos peixes, machos e fêmeas agrupados num espaço fechado com um simples propósito: fazer com que o esperma de uns chegue e fecunde os ovos das outras. Tirando o fato de que agrupamentos humanos com esse específico propósito não existem, pelo menos não para procriação, tomamos pelo bacanal como a situação que parece ser a mais similar para termos de comparação, pois, mais uma vez, peixes são privados tanto de intenções quanto de responsabilidades e, se assim não fosse, com certeza não estariam os peixes por aí a fecundar qualquer peixa que lhe cruzasse o caminho, ou melhor dizendo, a corrente.

Nessa calma lagoa à qual recorrem tantos peixes e peixas acontece uma algazarra. São muitos indivíduos para um espaço diminuto. Chegam a uma conclusão coletiva: a de que, se permanecerem ali para sempre desfrutando da calma e da segurança, logo não haverá espaço, muito menos alimento, para eles e para a prole que está vindo e que é a razão primeira de eles mesmos estarem ali. Pois eis que, chegando a essa conclusão, os peixes, após certificados de que fizeram o que foram ali para fazer, deixam o local e voltam para o mar. Mas nem todos, há alguns que, exaustos da luta contra a correnteza e da ejaculação constante dos últimos dias, morrem ali mesmo e, religiosamente, dão de seu próprio corpo como alimento ao porvir das gerações.

Talvez mais impressionante do que a luta contra o rio seja o fato de que esses peixes, para procriar, voltem exatamente ao mesmo rio em que foram concebidos. Imaginem um diminuto peixe dentro da imensidão do oceano, sem placas que os orientem ou pontos de referência que os localizem, uma vez que, dentro do mar, qualquer coisa que permaneça imóvel por um longo período é consumido pelas algas, corais e outras coisas do gênero que fazem uma atualização constante da orografia e da decoração do lugar, tentando, após muito tempo e muito nado, voltar exatamente para seu ponto de partida. Talvez essa bússola interna, cujo Norte é seu ponto de partida, seja a compensação que a natureza achou por bem dar ao bicho que, não tendo intenção ou responsabilidade, se comprometeu desde os primórdios dos tempos a ser uma metáfora de completação de ciclos.

Ser concebido, nascer, deixar-se ao sabor do rio que vai e posteriormente ao sabor das marés que vão e vem, voltando, enfim, depois de muito nado, para o lugar onde tudo começou. E a volta é hercúlea, pois parece que nada ajuda o pobre peixe. Não havendo rota definida, uma vez chegando ao rio, este lhe barra o caminho com tanta intensidade que, mesmo que no final das contas chegue ao destino, que era primeiramente o lugar de onde nunca deveria ter saído, não lhe resta lá muito mais senão morrer.


Satisfeito com a definição do destino ictíaco, parei de refletir. Sentei-me e tirei a botina para colocar de novo meu pé esquerdo na água, pois minha intenção é estar com pelo menos metade do pé ao sabor do rio enquanto deixo meu corpo ao sabor do sono.

5 de novembro de 2010

Comendo, rezando e amando o Capitão Nascimento

Nesse feriado aproveitei para colocar em dia minhas responsabilidades cívicas, aquelas que todos temos que cumprir mesmo sem querer. Então, fiz duas coisas: votei e fui ver os filmes mais comentados do momento – Tropa de Elite 2 e Comer, Rezar e Amar.


Peguei uma seção dupla: mais cedo me alistei no BOPE e fui com o agora Tenente Coronel Nascimento atrás do novo inimigo. Ainda com sangue na lapela e com a vista cheia de realidade, jantei um belo arroz de polvo e depois me deixei levar pelos devaneios yuppies da bem sucedida em crise existencial Liz Gilbert. No fim, não resisti à tentação de imaginar o que aconteceria se os dois protagonistas se conhecessem.

Se a viagem da escritora ao exterior motivada por sua busca interior a trouxesse ao Brasil, poderia, gastando menos dólares ter aprendido tudo que aprendeu em um ano de gastança rodando o mundo. Na Bahia, aprenderia um novo idioma, o baiano, se empanturrando de iguarias tão ou mais calóricas que os diversos macarrões italianos. Poderia aprender a humildade sem lavar o chão dos templos hindus, mas pescando com lanças nua em pêlo nas comunidades indígenas no interior no Pará, seria uma bela cena. E, finalmente, encontrar seu guru no Rio de Janeiro – o Tenente Coronel Nascimento – no cubículo mais alto, do prédio mais alto do comando mais alto da inteligência policial carioca.

Obviamente o Coronel Nascimento não tem o charme desdentado do guru original, mas também tem a mesma rude sabedoria cujos preceitos básicos provavelmente levariam Liz às mesmas conclusões sem precisar de tanto tempo e num único lugar.

Seria ele a fazer com que ela superasse a propensão imperialista de todo americano e trocaria o peru da ceia de Ação de Graças pelas delícias de um churrasquinho de esquina em Padre Miguel sob fios de alta tensão apinhados de pombos com as mais poéticas misantropias. Lá se apaixonaria pela malemolência brejeira dos operários do pagode, não sem antes descobrir, em Mesquita, o porquê de a Chatuba ser o bonde dos careca (sic).

Seria ele a aproximá-la da fé mostrando que a entediante meditação poderia ser substituída pela pragmática seção de descarrego no templo maior em Del Castilho onde descobriria que o voto de verborragia tem mais poder sobre os ignorantes que o voto de silêncio e que num auditório com duas mil cadeiras poderiam ser encontrados mais de dois mil encostos.

Seria ele próprio, o Coronel Nascimento, a apresentar à moça o amor. Não esse amor hollywoodiano da qual ela fugiu por descobri-lo vazio, mas um amor com a singeleza do Méier, que a fará sonhar em ser apresentadora de telejornal. Um amor tijucano que se cultiva nas efervescentes beiras de piscina dos clubes e nas reluzentes praças de alimentação dos shoppings. E pegariam juntos o 607 chacoalhando até o ponto final, onde se matariam de amor no escurinho aconchegante do Largo do Estácio.

E, no final, ela encontraria no discurso dele logo após o incidente entre o Capitão Matias e o Beirada durante a ocupação de Bangu 1, aquelas palavras que a traduzirão por completo: você tem que aproveitar as chances que tem, mas lembrando que tem coisas que fazem um furo pequeno na entrada, mas o buraco de saída é do tamanho de uma tangerina.

29 de outubro de 2010

Primeiro Beijo

Esta noite sonhei com um primeiro beijo. Você vinha longe cercada por uma aura colorida e suave, quase levitando. Seu vestido parecia fluido, tremulando em volta do corpo, escondendo e revelando curvas; às vezes frágeis, às vezes generosas.
Seus olhos – achas ardentes a marcar a face clara e sublimada – deixavam um rastro de minúsculas pedras preciosas como uma corte de fadas seguindo pelo caminho anunciando tua aproximação. Deles partia um olhar infinito, misterioso e corrosivo. Úmido apesar de petrificado no meu e prestes a derramar-se em júbilo.

Vinha com as mãos estendidas como quem distribui dádivas, compartilha calor e abençoa condenados. A sombra dos seios a marcar rijos o caimento do tecido evanescente. Finalmente parou diante de mim colocando-me em estado de epifania. Vi de muito perto a tempestade de cabelos escuros escorrendo em cachoeira sobre os ombros eternos e o colo macio.

Entreabertos como buracos-negros, nossos lábios se atraíram numa gravidade lasciva e o impacto de um milhão de estrelas me cegou. Não fechei os olhos e, mesmo cego, continuei vendo você.

Unimo-nos por um momento que passou longo demais para ser lembrado por inteiro e demasiadamente fugaz para ser aproveitado por completo. Corações pararam. Morri um pouco e renasci acordado, não querendo voltar para o sonho, mas me certificar de que seu primeiro beijo do dia fosse tão intenso e inesquecível quanto fora o meu.

25 de outubro de 2010

Celas de Aniversário

Pelas barras das celas do pavilhão cinco já havia corrido sangue demais. No piso de ardósia estavam marcadas como tatuagens de sangue indeléveis as tentativas frustradas de fugas e rebeliões passadas. Ainda era possível encontrar um dente perdido nos cantos dos degraus sob os corrimãos de aço fundido. Não havia cárcere naquele andar que não tivesse presenciado gritos de dor e choros sufocados de ira.


Sob essa atmosfera eram tratadas as tortas índoles daninhas à sociedade: oito detentos cujos crimes expiavam vestindo com o cinza de seus uniformes os longos dias cativos. As refeições frugais evitavam a preguiça, pois suas forças eram usadas para o trabalho na fábrica de tijolos que o presídio mantinha: seus esforços ajudariam a construir a sociedade e não mais destruí-la. Os banhos de sol eram curtos e as visitas escassas. Nesses dias específicos, seus corações empedernidos se amoleciam pela presença de um ente próximo (que poderia ser uma mãe arrependida ou um vizinho apiedado) ou pela simples ausência de alma que os quisesse bem ou mal. A sensação de abandono era trágica e, somada ao discurso dos psicoterapeutas que os acompanhavam, virava argumento motivador de mudanças de hábito, de amizades e de princípios.

O processo de domar essas pessoas com características tão extremas precisava utilizar-se de todas as oportunidades para a construção de símbolos que os fizessem produzir o esforço necessário para a mudança. Se um filme era projetado numa seção de cinema, sua mensagem deveria ter um conteúdo construtivo para o processo. A biblioteca exclusiva do pavilhão cinco encerrava obras de superação e perseverança. Uma orquestrada lavagem cerebral era posta em prática naquele pavilhão com resultados mais do que comprovados.

Nas paredes dos corredores de acesso às celas, rostos expunham esse sucesso. Albely de Souza, condenado a 19 anos de reclusão por tráfico de estupefacientes. Atual proprietário do hotel Alma Peregrina. Caetano Morais, condenado a 16 anos de reclusão por utilização de inimputáveis para prática de homicídio doloso. Atual chef do restaurante Ponte do Amanhã. E muitos, muitos outros exemplos de correção conseguidos pela instituição penal.

Os oito apocalípticos aspirantes a integrados, atuais moradores transitórios do pavilhão cinco, lutavam diariamente contra suas inclinações para, um dia, terem seus retratos pendurados naquelas paredes. Mas um deles pretendia algo diferente. Algo que o elevasse à condição transcendente de messias salvador.

Condenado por formação de quadrilha, uma condenação aparentemente menor em comparação às dos outros detentos, Ramiro foi o responsável pela organização criminal mais longeva e violenta do bairro onde morava. Sob seu comando estiveram onze meliantes responsáveis por crimes das mais diversas naturezas. Era um líder nato e, como tal, tinha a eloqüência necessária para aliciar tanto marginais quanto almas retas para seus esquemas. Conhecia a todos e mantinha-os perto fazendo-os acreditar que eram seus amigos. Era muito bom nisso.

Com sua capacidade ímpar de angariar informações, Ramiro descobriu que haveria algum evento interno daqui a três meses. Seu raciocínio rápido cruzou dois dados importantes que culminariam numa fuga perfeita: distração no mês de seu aniversário. Sairia da cadeia e comemoraria seus vinte e sete anos dentro do seu antigo covil, já preparando o próximo golpe.

Pôs mãos à obra e levantou o necessário: mapas, plantas, bilhetes, favores e concessões, tudo foi feito. Desenhou o plano e o caminho que faria através dos dutos de esgoto, as galerias pluviais e os corredores elétricos por sob a carceragem. Pronto. Precisaria de exatamente oitenta e sete dias entre o início das operações e a saída ao ar livre no dia do seu aniversário.

Apenas os mais confiáveis colegas de presídio sabiam do planejamento. Por mais que se sentisse auto-suficiente, teria que compartilhar algumas informações para conseguir privilégios e, no fundo, se sentir seguro, mas, principalmente, para ter de quem se vingar caso algo saísse do seu controle.

Como um bom gerente de projetos, foi ajustando alguns planos e se colocando algumas metas intermediárias, até que no octogésimo sexto dia, conseguiu chegar à saída de esgoto que precisava. Ela estava lá, disponível e desguarnecida. Apenas um empurrão o separava da sua liberdade. Nesse dia, voltou para dentro de sua cela com um sorriso estampado no rosto. Faria as coisas agora devagar. Sua última refeição em cativeiro a degustaria com calma, como se já estivesse na laje do seu barraco com vista para o mar.

No dia seguinte, com todos os presos em suas devidas celas, viu o movimento dos guardas no horário combinado em direção ao tal evento. Esperou ansioso até que se trancafiasse o último cadeado e engendrou seu plano. Entrou pela privada contorcendo-se pelo sifão, vocês não sabem a bitola dos canos de esgoto dessas instalações hoje em dia e o quanto um perito em fugas pode dobrar-se na direção de seu objetivo. Passou do esgoto para a rede pluvial, desta para as galerias e de lá para os corredores elétricos, como havia pensado. No fim de um corredor, as luzes entravam em fachos redondos por entre os buracos da pesada tampa de aço no teto do corredor. Subiu uma pequena escada e certificando-se que a luz era somente a da lua, forçou o pesado aço com os ombros, deslocando a tampa e, finalmente, fitou a amplitude do céu salpicado de estrelas.

No último impulso, aquele que damos para colocar o corpo todo para fora de um buraco onde não queremos estar, foi surpreendido por uma forte luz. O holofote havia sido ligado. Alguém o tinha delatado. Imóvel, não ouviu sirene, nem gritos de “pare” nem estampido de tiros, mas um coro dissonante de vozes conhecidas cantando “parabéns a você” enquanto as luzes da festa ao ar livre acendiam e revelavam qual era o inusitado evento em que guardas estariam no dia de seu aniversário.

21 de outubro de 2010

Verdades

Venho revirando minha vida à procura de verdades e a única que encontrei até agora é que, por mais eternas que possam parecer, as verdades são mesmo é transitórias.

São transitórias porque nós não somos sempre os mesmos. Enganamo-nos querendo que as verdades se mantenham as mesmas tentando buscar uma coerência que a vida em si não tem. Teimamos em acreditar nelas mesmo quando elas zombam da gente já dentro do túmulo, mortas e enterradas.

Minhas verdades hoje são mais reflexo do que eu sinto do que dos meus pensamentos racionais. Se sentir raiva, essa é verdadeira. Quando passa a raiva e sinto afeto, esse é verdadeiro. Verdades absolutas são colunas dóricas em ruínas. Lindas e nos fazem refletir sobre o passado, mas são vítimas de uma tirânica obsolescência.

Verdade, verdade mesmo, é o que nos move a fazer coisas. Por isso, verdade é sentimento. Verdade se manifesta no tremor nas pernas e na contração no abdome. Quase podemos tocar a tensão no ar.

A coerência da vida ou esse prolongamento da vida útil de uma verdade só é possível com a manutenção do sentimento. O silêncio é árido e só espinho se cria nesse ambiente. Fazer uma verdade florescer diversas vezes ao longo da vida é uma questão de regar o sentimento que a sustenta. Essa água pode ser feita de saliva ou lágrimas, mas o importante é que esteja sempre fresca. Cabe-nos escolher quais verdades valem à pena serem regadas e quais devem secar e dar lugar a novas.

18 de outubro de 2010

Nova Iorque

Participo de um grupo de leitura com o objetivo de mostrar meus textos para um seleto grupo de autores mais experientes do que eu e, com as críticas, torná-los mais palatáveis a vocês, meus três leitores.

A maioria dos partcipantes escreve humor. Não é muito a minha praia, mas imbuído do espírito de colocar minha cara e minha caneta à tapa, escrevi logo para o primeiro encontro do grupo esse breve conto baseado em fatos reais, ou melhor, em uma narrativa de um amigo sobre um episódio que realmente aconteceu. Ele que me perdoe, mas queria muito anexar ao texto as caras que ele faz quando conta essa história. Não dando, aí vai:


Nova Iorque


Blue era a cor da mala que Luis acabara de despachar no check-in do aeroporto. Estava feliz da vida por ter conseguido juntar o dinheiro necessário para embarcar nessa que era a viagem dos seus sonhos: Estados Unidos. Sabia que a viagem seria solitária, mas nada tirava sua empolgação.

Desde sempre tinha curiosidade de conhecer Nova Iorque. Sabia de cor a localização das ruas que eram citadas nos filmes da TV. Tinha um mapa onde apontava os lugares como a Magnólia Bakery, melhor apple pie de NY, lá na Bleecker Street e o DeWitt Clinton Park onde disfrutaria de um passeio sossegado à margem do rio logo ali entre as 52nd e a 54th street. Mas gabava-se mesmo era de seu inglês. Sua meta era falar tão naturalmente que ninguém o identificasse como estrangeiro. Queria ter a fluidez de um cidadão novaiorquino e se esforçava tanto para falar da maneira que lhes é peculiar que chegou a se cadastrar em um desses programas de troca de cartas para se corresponder com um nativo e aprender as gírias e os palavrões diretamente dele. Era encantador ouvi-lo dizer motherfucker.

Quando juntou todo o dinheiro necessário, foi até uma agência de turismo reservar o pacote New York, New York: 4 dias e 3 noites com vista para o rio Hudson. Imperdível. O problema agora era segurar a ansiedade. Ninguém mais agüentava Luis gastando seu inglês com tudo. Não era difícil escutar um amazing quando algo o agradava ou um Oh, my! quando espantado.

Enfim chegou o dia do embarque e, como dito pelo próprio Luis insone, couldn’t sleep at all. O check-in correu bem. O embarque foi ótimo. Luis reservou uma poltrona na janela pois queria ver a cidade se descortinando aos poucos sob as nuvens. Estava absorto nesse pensamento com o avião já no ar quando foi interrompido pela aeromoça:

- Rélougentoumanduiuuantiuaitiuain?

Luis não se fez de rogado e emendou quase instantaneamente, pedindo que a aeromoça repetisse a frase pois não tinha prestado attention:

- Duiu-uanti-uaitiuain?

Nervoso, Luis hesitou um pouco mas pediu novamente que repetisse:

- Duiu-uantuaiti-uain?

E isso ocorreu mais umas duas ou três vezes até que o senhor sentado à poltrona da frente perdeu a paciência e levantando, berrou “PORRA, DO... YOU... WANT... A... WHITE... WINE? WHITE WINE! VINHO BRANCO, ANIMAL! VOCÊ QUER UM VINHO BRANCO?

6 de outubro de 2010

Ainda bem que não tenho herpes

Ainda bem que não tenho herpes. Acho uma efermidae cruel. Ainda mais aquelas que se manifestam devido a algum desequilíbrio emocional momentâneo. Explode sobre os lábios como sirenes de emergência denunciando o momento difícil de seu portador.

Se fosse comigo, minha boca seria uma eterna chaga, um alarme como esses das garagens dos prédios que disparam à noite e não param mais de tocar. Sou grato aos deuses que me ungiram com a bênção da calvície, já que todos devem carregar algum gatilho metabólico congênito e vitalício.

Nos piores momentos, então, posso, como dizem uns, "olear os cabelos e levantar a fronte". Bem, olear os cabelos nem tanto, mas posso recolher-me ao meu sofrimento e compartilhá-lo somente quem eu quiser. Ainda bem que não tenho herpes. Tenho privacidade.

4 de outubro de 2010

Vi o amor em José & Pilar

Minha segunda incursão no Festival do Rio foi bem melhor do que a primeira. Fui assistir José & Pilar, documentário que mostra o relacionamento do português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, com a jornalista e ativista espanhola Pilar del Río. E as primeiras impressões acontecerem mesmo antes de começar a ser projetado: 160 pessoas na sala (aliás, belo lugar o Cine Glória) entre senhorinhas, jovens moderninhos, filósofos, patricinhas e gente normal que nem eu (ou não). Achei a frequencia bem eclética, o que nos dá uma pista sobre a abrangência da obra do Saramago, as boas críticas que vem tendo e a qualidade do filme em si.

Antes de falar sobre esse filme, devo contar sobre a primeira incursão no Festival. O filme: Atrações Perigosas, dirigido e estrelado por Ben Affleck. Ok, ok...eu sabia que era estrelado mas não sabia que era dirigido. E foi exatamente esse o pior erro do filme que conta a história de uma gang de Boston especializada em assaltos a bancos e carros-forte. O protagonista vive uma crise existencial e decide parar depois do próximo golpe. Algo dá errado, a gang tem que seqüestrar a gerente do banco (coisa que nunca fizeram) e a gerente do banco mora no mesmo bairro que eles. Encurtando a estória, mocinho e mocinha se apaixonam, mocinha descobre que mocinho é do mal, mocinho tenta se desvencilhar das más amizades e não consegue, mata todo mundo, foge e deixa a grana do assalto pra mocinha fazer caridade. Fim. É isso. Apesar do bom argumento, é chato, bobo e mal interpretado.

Bem, voltando ao que interessa, José & Pilar consegue captar uma conexão que só uma relação de amor constrói. Quando pensamos num escritor, tendemos a imaginar uma vida apaixonante, criativa, sem rotinas e completamente entregue aos devaneios que, devidamente burilados, viram frases inesquecíveis. Pois o filme mostra uma vida literária atribulada, cheia de compromissos chatos, longos e aborrecidos. Viagens longas, doença, família e tudo o que há de mais comum na sua e na minha vida. A diferença é que essa vida é retratada sendo vivida por um dos personagens mais lúcidos da história mundial e uma mulher ativa, perseverante e amorosa do lado dele.

Saramago é uma figura icônica. Jornalista, ateu convicto e comunista, viveu sua vida sob esses conceitos e é totalmente compreensível que só se tenha libertado para o amor com a aproximação da morte. E, resultado dessa lucidez ímpar, seu amor é de uma entrega que não compromete suas convicções e, resultado talvez da idade, maduro o suficiente para não ser baseado simplesmente na paixão. Pilar, nessa história, vive uma paixão amorosa. A paixão que se traduz no fazer, no construir, no levar o marido que ama aos píncaros do reconhecimento por seu trabalho. É também uma entrega, mas feita como a tradução da sua própria personalidade e extrema capacidade de realização.

O documentário em si é pura poesia. Mesmo os momentos mais severos são tratados com leveza e, no fim das contas, traduzem um sentido como o próprio discurso do Saramago que não tenta convencer, mas apresenta argumentos sustentados e fortes o suficiente para tanto. A dinâmica do filme nos mostra o equilíbrio entre o plácido desvelar de verdades seguras e, de certa forma, melancólicas do escritor e a vitalidade, o trabalho duro e o idealismo da jornalista, mesmo sob todas as críticas de oportunismo que ela sofre. Em um dado momento, ocorre uma discussão entre os dois sobre a eleição de Obama (que ele defende e ela critica, apoiando Hillary Clinton como representando dos direitos e davida da mulher). Impagável.

Fica então a dica para quem não assistiu. Parece que o filme entrará em cartaz no grande circuito. Mais uma prova de que, mesmo sendo documentário, o longa é de interesse geral e irrestrito. E, para completar, segua um link para um curta de animação baseado na obra A Maior Flor do Mundo.

1 de outubro de 2010

A última gota

Na última vez que estive aqui, lembro-me, também não havia ninguém. Ouvia, vindo de algum lugar, um triste murmúrio que, agora pensando melhor, poderia estar vindo de mim mesmo. Não foi fácil chegar aqui novamente, pois muito tempo já se passara desde a última visita e a paisagem parecia mais desolada e mais árida, sem muitos pontos de referência. Vi ao longe minha consciência sob a forma de minha própria silhueta, uma sombra de mim mesmo me guiando para onde deveria ir e fui.


Vendo-me aproximar, pegou na enxada e começou a cavar. Apesar do frio, o vulto pingava de suor sobre a terra ressecada. Era um esforço revolver aquele chão e a poeira subia fazendo-me apertar os olhos e liberar as lágrimas. Às vezes tossia sem saber se a causa era a poeira ou o choro.

Quando o buraco já estava na altura dos joelhos ouvimos o barulho que se faz quando se bate em algo oco. Ele ergueu-se, secou a testa com as costas das mãos e foi retirando o pouco da terra que cobria o baú de madeira a cinco palmos abaixo de onde eu estava.

Com dificuldade, nos ajudamos a parir da terra seca o grande caixote. Nós éramos as parteiras, mas gritávamos a dor das mães. As ripas enegrecidas pelo tempo ainda se mantinham invioladas tamanho cuidado que tive em fechar qualquer fresta. Aos poucos e depois, eu mesmo me lembraria de como passei anos trabalhando nesse esquife, cada prego e cada entalhe exatamente onde deveriam estar.

O homem comigo me estendeu um pé-de-cabra. Ele já tinha trabalhado e sofrido demais, era eu quem deveria me sujar e suar a partir de agora. Com dificuldade fui empurrando a dura língua bifurcada do artefato contra o baú. A madeira estalava e reverberava como se meus fossem meus próprios ossos estalando.

Por fim, abri-o todo e lá estava eu, deitado de olhos fechados, braços cruzados e mãos espalmadas sobre o peito. Não era exatamente a fisionomia mais jovem que vira da última vez que fechei antes de deixá-lo, mas era como se me visse num espelho agora. E quando o ar se sugeriu sobre as narinas do eu deitado, ele tossiu e uma grande nuvem cinza subiu crescendo e tomando todo o céu com a própria revolução.

Eu-deitado então abriu os olhos verdes piscando várias vezes sob os cílios esbranquiçados de pó. Não agüentou a forte luminosidade e, levantando-se, se manteve também com os olhos cerrados. Um silêncio imóvel seguiu-se, como um segundo antes de o maestro ordenar o primeiro movimento de uma sinfonia.

Agora éramos três: eu, eu-deitado agora de pé e minha consciência sem mais ferramentas. Não nos preocupamos em tapar o buraco, assim como não catam os abutres os restos das carcaças que comem. Sabem que a natureza agirá e, em algum momento, a chuva cairá ou a terra sacudirá o terreno sozinha. Por isso lá deixamos buraco e caixão aberto como provas de que ali houve uma exumação. Nos demos os braços caminhando de volta para o lugar de onde viemos já sentindo os primeiros pingos daquela nuvem carregada que agora nos cobria, anunciando o fim de um ciclo. Era só esperar que a última gota caísse para que se iniciasse o próximo.

24 de setembro de 2010

Quando a gente morre, a gente vai pro futuro.

Assisti nesse final de semana o blockbuster brasileiro Nosso Lar. Baseado no livro homônimo de Chico Xavier, o filme conta a história de André Luiz, médico que desencarna e passa por um purgatório antes de chegar à colônia astral de recuperação de espíritos recém-desencarnados chamada Nosso Lar.

Viagem à parte, o filme é muito bom tecnicamente: figurino new-age intrincado, cenários terrenos caprichadíssimos (destaque para a sala de cirurgia ainda na Terra onde o protagonista morre), efeitos especiais que criam um clima futurista e, acima de tudo, é bem fiel ao livro. Muito denso de ensinamentos e doutrina, o livro constitui um enorme desafio ao ser adaptado para o cinema. O critério utilizado de focar mais no crescimento moral do protagonista do que nas numerosas armadilhas que poderiam levar a uma descrição prolixa do ambiente de Nosso Lar que não agregariam nada, a meu ver, foi um acerto. O ponto negativo, por outro lado, ficou para a interpretação dos atores. Os diálogos duros pareceram-me os de um filme bíblico da década de sessenta. A má interpretação pode ter sido resultado da própria linguagem do livro, antiga e rebuscada demais para os dias de hoje.

Sou um curioso pelo tema e já li alguns livros espíritas. De longe Nosso Lar foi o melhor, seguido bem de perto por Há Dois Mil Anos (esse vale uma resenha só para ele e, quiçá, um filme). Além da reencarnação, característica diferencial do Espiritismo, um grande conceito bem aproveitado pelo filme é de que as coisas na Terra são reflexos das coisas de Nosso Lar. Ouvi um comentário interessante: “Engraçado, a gente morre e não vai pro Céu. Vai pro futuro”. Parece que Nosso Lar funciona como Matrix: a realidade da nossa vida terrena é um reflexo da tecnologia e da vida levada em Nosso Lar. A tecnologia e a vida na Terra são a tecnologia e a vida do Céu, só que limitada pela matéria e pelo esquecimento que a reencarnação causa. Não quero aqui abrir discussões teológicas, mas literariamente essa é uma boa idéia. Outro comentário: “O Céu é um saco, tem ministério disso, ministério daquilo! Para isso eu fico aqui mesmo. O Inferno deve ser mais interessante”. Novamente, cada um com seus conceitos.


Como um fenômeno mercadológico, o filme sem dúvidas surpreende. Nosso Lar já foi visto por mais de 1,6 milhão de pessoas (até 13/09) e está na frente de grandes lançamentos como Karatê Kid, Meu Malvado Favorito e A Origem.O filme de Chico Xavier já havia sugerido que o tema iria pegar: conquistou o título de maior bilheteria nacional no final de semana de lançamento dos últimos 20 anos. E, na minha opinião, abriu um novo filão: o do filme espírita. Preparem-se para ver outros lançamentos em breve pois há uma infinidade de livros (desde doutrinários a romances épicos) que podem virar bons roteiros, ainda mais se as apostas de que Nosso Lar será o representante do Brasil na próxima disputa do Oscar se concretizarem. Eu, particularmente, acho muito difícil. O tema é restrito, o americano não se encanta com essas coisas, os efeitos são arcaicos em comparação aos utilizados por lá e, apesar de ter grande bilheteria no currículo, terá de concorrer com produções mais elaboradas e com temas mais abrangentes das outras produções estrangeiras.

No final das contas, Nosso Lar é isso: um bom filme, mas com vários pontos fracos. Mais ou menos como o próprio Espiritismo: uma doutrina sólida e consolidada, mas ainda com muitos preceitos a serem entendidos.

8 de setembro de 2010

O gerúndio do caminho

Vi há pouco tempo a mini-série Os Pilares da Terra, baseada na obra homônima de Ken Follett. São apenas oito episódios que, como o livro, contam a história da sucessão do Rei William da Inglaterra, usurpador do trono, pela Rainha Matilde, legítima herdeira, nos idos do Séc.XII através da estória da família de um pedreiro contratado para a construção da catedral de Kingsbridge.

O livro, desnecessário dizer, é muito melhor que a série, mesmo produzida por ninguém menos que Ridley Scott e recheada de grandes nomes no elenco como Donald Sutherland (o pai real do protagonista da série 24 Horas) e Michael MacFadyen (o Mr. Darcy de Orgulho e Preconceito). A série não chega a empolgar apesar da grandiosidade da produção sem dúvida monumental desde os cenários (principalmente nos primeiros episódios) ao figurino.

Independente disso tudo, o personagem principal da trama, Jack Jackson, filho adotado pelo mestre de obras da catedral, impressiona. É um rapaz de uma sensibilidade tamanha que beira a loucura dos gênios. Numa passagem ele diz ouvir os sussurros da pedra dizendo para ele onde bater seu formão para fazer as lindas gárgulas das quais é responsável. E é essa sensibilidade que o diferencia dos outros personagens no que diz respeito às suas motivações.

Jack vive num mundo só dele, conversando com os sussurros que ouve. Como um cão, ama e odeia intensamente e chega a (cuidado, spoiler!) pôr fogo numa igreja para que seu pai adotivo seja contratado para os reparos. Gosto dessa intensidade desmedida, dessa paixão distorcida. Não que me identifique nelas (tudo bem, um pouco) mas é um traço que gosto de ver nas pessoas, um brilho nos olhos de fazer o que gosta, mesmo que o gosto seja duvidoso. A persistência em algo que se acredita é gratificante.

E não precisamos ser necessariamente artistas para chegar nessa sensibilidade. Paixão se esconde nos mais estranhos lugares. Há quem se perca descrevendo suas sensações enquanto pesca ou dirige em alta velocidade. Dá pra notar num sorriso, num olhar quando alguém está satisfeito com o que faz e isso faz toda a diferença na qualidade do que se quer ver realizado. Gosto de me cercar de pessoas assim, pois também sou um pouco assim. Gosto do mergulho, do aprendizado e da entrega que se faz às paixões. Não raro busco apaixonar-me por alguma coisa, como um livro ou um tema que preciso me aprofundar mais para algum trabalho qualquer ou uma idéia que precise ser melhor desenvolvida.

O problema das paixões é que elas tendem a morrer uma vez que o objetivo é atingido. Há um momento do seriado em que uma suposta bruxa amaldiçoa um líder religioso usando a seguinte frase: “tu vais subir bem alto em suas ambições tão somente para cair”. De tanto lutarmos sufocados por nossos ideais, obnubilamos o fato de que, uma vez conquistados, esses ideais servirão apenas como enfeites na nossa memória. Fotografias encardidas e poeirentas de uma apoteose que já não nos tira o traseiro da poltrona. O melhor a fazer, então, é viver a antítese: desejar sempre e nunca alcançar. Conscientemente. Sem o sofrimento que o inalcançável (com o próprio agravante de ser paixão) pode causar, mas com esforço. Uma vez ouvi a expressão pleasure delayer no filme Vanilla Sky. Não acho que essa seja a solução, uma vez que o caminho é o prazer e não o destino em si. Talvez devêssemos abrir os olhos para o valor dessa busca, baixando um pouco a bola do seu encontro. É preciso sensibilidade para isso. Não essa louca como a de Jack Jackson, mas uma lúcida, que enxerga no gerúndio do processo a afirmativa de sua conclusão.

Por isso assisti Os Pilares da Terra. Com a intenção de percorrer um caminho prazeroso que me fizesse apaixonar novamente pela obra de Ken Follett. Não consegui, mas certamente alguns momentos entre os oito episódios fizeram alguns pêlos eriçarem-se.

3 de setembro de 2010

Presença

Tenho certeza que já estive com a morte. Não a vi, na verdade, mas estou certo que ela já me viu e consultou seus alfarrábios infinitos sobre minha posição na lista de reservas no Descanso Eterno.

A primeira vez que compartilhamos o mesmo recinto foi lá em casa. Eu não a convidei, ela apareceu de surpresa. Tinha um compromisso marcado já há algum tempo com a minha avó, que não conseguiu nos avisar com antecedência devido às seqüelas de um derrame. Eu ainda era criança, uns seis ou sete anos e estava dormindo na hora que ela chegou. É certo que me viu pois o caminho da porta de entrada lá de casa até o quarto da vovó passava necessariamente pelo meu. Eu, que sempre dormi de porta aberta até chegar à adolescência, não devo ter despertado seu interesse na época. Ela tinha coisas mais urgentes para resolver. No dia seguinte, e ainda ignorante do acontecido, fui para a escola me sentindo mal com dor de barriga. Pedi à professora para ir embora e ela me levou à coordenação de onde ligaram para a minha casa. Meus pais atenderam e disseram que não poderiam me pegar naquele momento, certamente atabalhoados com as providências necessárias para completar o trabalho começado pela funesta visita. No fim das contas, a passagem dela, mesmo que só resvalando na minha existência, já me causou complicações.

Certamente estive próximo dela outras vezes em situações associadas a meus avós. Todos bem longevos, freqüentavam assiduamente hospitais. Algumas vezes em urgência, outras apenas corriqueiramente. Nesses hospitais, eu não podia deixar de sentir a presença dela passando pra lá e para cá, como uma formiga diligente. Não chegava a vê-la ainda cara-a-cara, mas percebia o final das barras de seu manto surrado quando virava corredores ou entrava por entre as grandes portas amarelas da UTI.

Numa dessas visitas hospitalares à minha outra avó, entrei no quarto junto com algumas tias barulhentas demais para o recinto e a ocasião. Tinha uns dezoito anos e essa era a avó com que mais compartilhei bons momentos de infância. Ela, deitada na cama, havia feito há pouco um exame onde lhe introduziram um tipo de contraste no sangue para identificar as máculas do fígado. Ironicamente, o próprio contraste causou uma insuficiência no fígado que a levou de nós. Minhas tias disputavam sobre qual filho era mais bem sucedido em sua carreira enquanto minha avó olhava para mim com olhos estranhamente lúcidos e sorria, como a zombar das tias mesquinhas em querela. Não entendi na hora, mas o que ela me disse naquele olhar era “estou indo embora para cima e elas aqui de cabeça baixa”. Peguei na sua mão com a força que merece um abraço de despedida e ela se foi.
Quase caí no chão por conta do esbarrão que a morte me deu ao sair do quarto. Mal-educada, nem pediu desculpas. Mas não tomei pelo lado pessoal e até, mais tarde, relevei a rudeza pois a cerimônia de inumação foi de tanta suavidade que me levou ás lágrimas. Ainda tenho na memória a lembrança de minha sobrinha, aquele anjo de 3 anos jogando pétalas de rosas sobre o esquife que descia em meio a cânticos de esperança entoados pelos presentes.
Antes desse primeiro contato físico, já havia experimentado a brisa fria que seu manto causa quando passa por nós com pressa. Ela vivia correndo atrás de meu pai e ele, por algum tipo de característica que até hoje desconheço, sempre se desviou, como um toureiro evita a estocada do chifre taurino. Meu pai, fumante, boêmio, sedentário, estressado, cinco filhos, introvertido, mas de uma presença e bom-humor inigualáveis, tinha alguma leveza ou flexibilidade que driblava a morte como ninguém. Mas não sem sustos. Passou um período de mais de um ano recebendo periódicas visitas da morte que nunca conseguia levá-lo além dos hospitais coronarianos. Até que, miraculosamente após uma cirurgia dupla de safena, ela desistiu. Ele havia ido para São Paulo, de ônibus, para consultar um médico referência no tipo de mal que o afligia. Ao chegar ao consultório e após as primeiras perguntas da anamnese, o próprio médico, incrédulo, indagou: “Como o senhor conseguiu chegar vivo até aqui!? E de ônibus!? Vou interná-lo agora mesmo!” E assim foi. Internou-o, trocou alguns tubos de irrigação velhos por outros mais novos e pronto. Meu pai voltou para casa são. Hoje, continua boêmio, com cinco filhos, estressado e introvertido, mas parou de fumar, como uma afronta a morte que desistiu de agarrá-lo.

Apesar de acompanhar seus feitos através dos jornais quase que diariamente, a última chance que tivemos de nos encontrar em público foi na despedida da mãe de um grande amigo. Acho que a morte gosta dessas cerimônias que fazemos em homenagem aos finados. Parece-me que ela toma-as para si, como a apoteose de sua conquista. De certa forma, honrar a pessoa que se vai é lembrar-se daquela que a levou. O que muda é a polaridade desses sentimentos dentro de cada um de nós.

Essa proximidade que construímos ao longo do tempo fez-me crer que a morte, apesar de ser comprometida e trabalhadora, é também vaidosa e megalomaníaca. Principalmente entre povos que não dão muito crédito de que ela seja o fim de tudo, a morte tenta marcar fundo sua presença, arrebatando vidas em grandes quantidades a cada ceifada. É comum vermos acidentes na China e na Índia, nações cuja filosofia há muito descobriu a relatividade da morte, em que almas são levadas aos milhares. Um esforço prático para marcar sua importância.

E sua vaidade confirmo no fato de senti-la neste momento, suspirando onipresente por trás de meus ombros, lendo essas linhas e esperando que eu acabe este texto com alguma exortação ou declaração de amor. Cuidadoso que sou, termino o texto agora mesmo abençoando-a com a ignorância sobre minhas intenções. Se gosta ou não, se me leva ou não, não importa. Fato é que, mais cedo ou mais tarde, estaremos juntos com um propósito real. Mas até lá, prefiro acompanhá-la ao largo e me refestelar nas experiências que sua irmã Vida tem a me oferecer.

12 de agosto de 2010

Noite

Quero arrancar o coração do peito e carimbar sua impressão digital nessas linhas. Com ele, meu pulmão e minhas vísceras coloridas de verde e roxo, caleidoscópicos, contrastando com meu pálido exterior cujas pistas distribuem meus olhos vermelhos de raiva e choro, embotados e insones.
A noite febril desmoronou meu mundo e dos escombros de mim hão de nascer as flores mais bonitas. Das cinzas do meu corpo surgirão titãs de argila negra e se erguerão sobre as muralhas da alma como a reconquistá-la, exilados de uma pátria agora sem fronteiras, difusa.
Sou a raiz da mandrágora a me espalhar no solo fecundado, artista moldado em forja e marreta nessa fôrma que me comprime as asas.

19 de julho de 2010

Filhos

Não é meu, é do Khalil Gibran.

“Teus filhos não são teus filhos.
São filhos e filhas da Vida, anelando por si própria.
Vêm através de ti, mas não de ti,
E embora estejam contigo, a ti não pertencem.
Podes dar-lhes teu amor, mas não teus pensamentos,
Pois que eles têm seus pensamento próprios.
Podes abrigar seus corpos, mas não suas almas,
Pois que suas almas residem na casa do amanhã,
Que não podes visitar sequer em sonhos.
Podes esforçar-te por te parecer com eles,
Mas não procures fazê-los semelhantes a ti,
Pois a vida não recua, e não se retarda no ontem.
Tu és o arco do qual teus filhos, como flechas vivas,
São disparados.
...................................................
Que a tua inclinação, na mão do arqueiro,
Seja para a alegria”

27 de maio de 2010

Enfim, Lost. Ou carta aberta aos produtores.

Prezado J.J. Abrams e demais roteiristas e produtores de LOST.


Sou cliente LOST desde 2008 e venho por meio desta documentar minha insatisfação com o serviço prestado pela série.




Longe de mim duvidar dos bons escrúpulos e boa-vontade dos senhores e das empresas do grupo prestadoras diretas ou indiretas do serviço a qual essa reclamação de dirige. Simplesmente gostaria de dar voz a minha consciência que, nesse momento, encontra-se aviltada pelo conteúdo a mim ofertado.


Eximirei de comentários negativos as 4 primeiras temporadas pois tendo-as baixado gratuitamente de sites da internet, não me vejo no direito de pedir maiores explicações sobre ursos polares, árvores arrancadas pelas raízes e demais tripulantes coadjuvantes do Oceanic original.


Porém, uma vez tendo-me associado à TV por assinatura pela qual chega a mim o conteúdo dos senhores, e, por conseguinte estando em dia com os todos os pagamentos devidos aos senhores pelos direitos e royalties cobrados, sinto-me na obrigação de aventar minha insatisfação quanto ao serviço prestado pelas temporadas 5 e 6 oferecidas pelos senhores e contratadas por mim a partir de 2008, ano já citado anteriormente.


Recuso-me a acreditar que os senhores, profissionais que são, tenham escrito o episódio final da série como se escreve uma listas de compras, dez minutos antes de sair de casa, uma vez que a complexidade da relação de vários acontecimentos descritos nas trama anterior e a necessidade de solução de todos os mistérios, devam exigir um acompanhamento tão árduo como o trabalho do continuista na produção da série.


Mas foi essa a sensação que tive quando vi o Jack, após ter restituído a misteriosa rolha que fazia jorrar a água dourada, sozinho perambulando na floresta antes de morrer. Pensei “Peraí, pra descer foi mó perrengue...mas pra subir a água dourada ajuda? Como assim?!”. Aliás, não entendi nada quando o Desmond tirou a rolha e a água parou de jorrar. Devia jorrar com mais força, não? Pelo menos é isso que acontece na minha banheira quando tiro abro o ralo...mas vai entender os mistérios que rondam essa ilha.


Aliás, a ilha escolhe seus campeões de forma muito estranha. Tudo bem o Locke ter voltado a andar quando caiu na ilha...a ilha o escolheu. E pra manter a coerência, a ilha escolheu o rolo de silvertape que o japa que ouve os mortos usou para consertar a hidráulica do avião. Mais sagaz que o McGaiver, o cara conserta um avião que caiu numa ilha apenas com a santa silvertape. Na boa, ela é tão messiânica que o próprio japa desabafa algo do tipo “In silvertape we trust”. Aliás, esse japa é um iluminado mesmo pois esta sempre na hora certa, no lugar certo e encontra a pessoa certa pra levar pro lugar mais importante do momento. Afinal, foi ele que achou o Lapidus boiando no mar quando ia em direção ao avião...mas vai entender os mistérios que rondam essa ilha.


Outra coisa, a ilha também escolhe um de Cristo pra zoar. A meu ver foi a Claire. Coitada da menina, primeiro que já chegou grávida, depois que ficou com o hobbit que acabou morrendo no meio do caminho (o que não deixa de ser bom pra ela), brigou com a protagonista, destruiu seu cabelo loiro escorrido, lá pelas tantas o filho sumiu...Deus me livre, a ilha poderia ter aliviado a barra dela. E no final, só de sacanagem, ela volta a ficar com o hobbit para toda a eternidade...que karma!


Mas sacanagem mesmo eu achei que foi com o Rodrigo Santoro. A performance do cara foi como a do Brasil na Copa de 82: no papel era imbatível, tinha apoio da massa, todo mundo achava q ia longe mas foi desclassificado logo logo. Até aí, tudo bem. Entendo que foi uma forma de criar audiência num público internacional pra render alguns trocados no começo da descida da ladeira da série. O pior é que ele não foi nem convidado pra festa final na igreja, ala final de novela da Globo: todo mundo reunido, feliz, se abraçando...e apesar de também ter sido dentro de uma igreja, faltou um casamento coletivo. Aliás, perdeu uma boa oportunidade de agradar o público brasileiro que já antevia isso e uma cena final do Ben internado num manicômio.


E , por fim, o que me deixou mais indignado foi quando caiu a ficha que o resto não tinha mesmo explicação. Venho tentando achar um porque para todas as informações dos flashbacks, das realidades paralelas, da metafísica e só consigo chegar a uma explicação plausível: a existência deles na ilha era um reflexo do ego individual em uma superposição alusiva ás suas realidades correntes e contemporâneas, desembocando um fluxo imaterial de dissoluções e ressoluções de realidade, em cuja aplicabilidade das leis da natureza reverte e reverbera em sintonia com um plano mental intermediário onde a realidade se molda frente a um esforço de vontade e que liga todos os personagens num vértice meta-esquizofrênico.


Quando cheguei a essa conclusão, percebi que todo o objetivo da série já estava contido no próprio título e foi o que entregou no final: enfim, Lost.




Após todas as razões acima descritas, gostaria de informar que estou descontinuando minha assiduidade á série Fashfoward, também de autoria dos senhores e que, por vias secindárias, já fui informado que vão deixar no meio do caminho e que, aguardo ansiosamente que o Spielberg ensine a vocês como contar uma história até o fim, já que é com ele a vossa mais nova incursão no meio áudio-visual no filme “Super 8”.


Sem mais, subscrevo-me.




Fabio Minervini

13 de maio de 2010

Desculpa

Me desculpa se pareço torto
ou de modo estranho ajo assim incerto
ou quando perto sempre me acanho
escondo o rosto ou olho pro teto

Me desculpa se desvio o olho
e sorrio contido quando me destraio
ou sempre que ensaio, sempre que escolho
as palavras somem, se perdem, me traem

Me desculpa se de repente me calo
desapareço, me encolho ou talvez
não há sentido naquilo que falo
quem consegue só amar uma vez?

Me desculpa quando não sou claro
ou por palavras tortas tento ser sincero
invento maneiras e não me desmascaro
evito a chance de te dizer "te quero"

Me desculpa se o medo transforma em balbucio
o segredo que levo e te diz respeito
e se dentro do peito sufoco esse grito
que tenho vontade mas não tenho direito

Me desculpa se não jogo tudo pro alto
e te convido numa nova aventura
é que, a essa altura, tomada de assalto
a vida uma hora cobra a fatura

E se o peito se quebra na única chance
não sei se aguento tamanho desgaste
romance privado de todo disfarce
diamante alterado não cabe no engaste

E por mais que me goste, perdoa
coração que trato tão mal
E por mais que me doa essa dúvida
me desculpa a tragédia moral
E releva quando me perceber,
olhar brilhante, chegando ao teu lado
sem assunto, palhaço, sonhando acordado
quieto, calado, só pra te ver.

27 de abril de 2010

A vida é um filme

O tempo hesita, desiste de correr
Afrouxa a corda tensa
A câmera é lenta para que as horas sejam plenas de sua presença

Teus cílios longos dão o corte
Edita lento, suave movimento de luz e sombra
Vida e morte

Sou platéia, o primeiro da fila
a contemplar cada lenta década dos teus passos
E me levanto aplaudindo, a cada despedida
nossos olhares trocados num abraço

Progresso e prosperidade

De que adiantam esses passos firmes se o coração sibila a cada batimento? Treme o peito ao acrodar de manhã estapeado pelo solque nos impõe realidade.
O suspiro e o olhar baixo. As mãos às têmporas apenas tentam esconder o que, lá no fundo de mim, fervilha e enlouquece. Ah, que vontade de destruir. De desconstruir, de reler minha própria história de trás pra frente.
Haja coragem para sacrificar essa persona que não cabe mais à face. Retirá-la é assinar um atertado de loucura, é assumir a condição marginal, vesti-me de mim mesmo e aceitar os dedos em riste à minha direção. Ah, os olhares estupefatos que virão. Arregalados todos ao se perceberem engessados e solitários. E eu, deixando a crisálida, bato forte as asas para algures. Não mais temente ao sol, não mais preso ao chão, mas refém de minha própria liberdade.
Coragem para impor a mim mesmo essa escolha. Pois bravo é o guerreiro que larga as armas quando não vê mais sentido na guerra.Bravo é o guerreiro cuja luta trava dentro de si. Cuja vitória e sobre a própria consciência. E cua apoteose é solitária e interna.
E assim continuo repetindo esse mantra, essas palavras valorosas no intuito de que elas me inspirem a coragem necessária, pois quando olhamos o precipício, ele também olha no fundo de nós.
Vencer o medo é a própria motriz do progresso. Empurro-me hoje na direção contrária à prosperidade, mas quero acelerar minha alma na direção desse progresso.

Cada escolha pressupõe uma perda

A cada momento que nos deparamos com a difícil tarefa de abrir mão de alguma coisa em prol de outra nosso pobre coração vacila. E é exatamente essa característica que nos diferencia dos outros seres vivos que nos causa mais sofrimento. A nossa consciência treinada pelo tempo a acumular e ter, se contorce toda vez que nos é imposta uma decisão. Evitamos a escolha na medida em que a decisão pressupõe uma perda. E o peso da perda nos angustia e assombra.
Curioso que exatamente essa nossa função (ou ilusão, como alguns preferem) é ao mesmo tempo nossa cruz e nossa redenção. A mesma consciência que nos estimula ao racional, ao cartesiano, a concreto, também nos impõe a projeção, a possibilidade, o abstrato. Somos os únicos na Terra que precisam justificar suas escolhas e aceitar suas consequencias. As opções nos torturam. Não há sofrimento na rosa cuja missão é perfumar nosso jardim. O peixe não sofre em sua submissa entrega ao anzol. Não ha angústia nas árvores ao produzirem suas sobras e frutos. Qual a nossa missão?

Por outro lado, precisamos a todo momento achar algo superior ou mais importante que justifique nossas escolhas e nos amenize o sofrimento causado pelas perdas que elas pressupõem. Nesse quesito, cada um tem para si critérios específicos. Mas para todos pesa a responsabilidade inerente a cada mudança de curso e, dessa forma, pode-se escolher a a semeadura, mas a colheita é obrigatória. Talvez seja esse mais um motivo que nos afaste delas. A vida sempre é mais simples sem elas. Se podemos ter tudo, o que há para sofrer?

Nossa conscência, então, nos empurra no caminho inverso e sofremos pela impossibilidade, por nossa peuliar pequenez. Queremos abraçar o mundo, mas somos formigas abraçando sequóias. E a consciência dessa pequenez nos dói e, mais uma vez, nos empurra na direção oposta.

Hoje ainda mais, diante de tantas opções, decidir é perder cada vez mais. Neste exato momento, pensem a infinidade de coisas perddas enquanto você lê este texto. Espero ter valido à pena.

25 de setembro de 2009

Punho fechado

Punho fechado
Espero sentado
o céu ocupado em amanhecer
A cara sofrida
o pus na ferida
a tez colorida a adoecer
Obstáculo à frente
a perna dormente
o corpo doente a estremecer
O sol que levanta coragem é tanta
daninha é a planta a lhe corroer
O passo incerto
caos sempre por perto
coração aberto com sangue a verter
És minha senhora
de hoje e agora
de dentro pra fora a me encolher

10 de setembro de 2008

Epitáfio da Infância

Qual a primeira palavra que se pronuncia depois de acordar? Quem consegue um tratado antropológico ao abrir os olhos depois de uma noite reconfortante?
Putaquepariu, talvez seja um bom exemplo. A perplexidade de se acordar só se traduz nessa palavra-frase, palavra-chave.
Estou vivo...deitado...o teto é branco...a chuva cai...há algo de mais excitante do que chegar à conclusão que toda aquela ação que se passou em um segundo e durou as horas da noite não passam de sinapses desconexas?

Difícil é começar a discorrer sobre amizade, passado, lágrimas e alegrias de uma vida assim...acabando de acordar. Mas agora, desperto e consciente, escrevo essas linhas de memória, insuflado pelo prolixo que me antecedeu.

Passei. Passei bem colocado, à frente de uma tal Adriana que acompanharia inexorável minha infância naquela instituição. Quem era? Quem é? Não importa. Só importa seu nome abaixo do meu na lista de nomes pretos fixada na parede de ladrilhos verde-escuros no grande pátio coberto daquele prédio. Aquele prédio que presenciaria tantas filas, formas, areia, dentes e sangues.
Não imaginava que ali faria rios na terra e passearia junto às galinhas num criadouro de almas independente de sua espécie. Assim fui criando-me, com professores da vida, quadros que caem, risos e jogos de futebol. "Campeones...olê, olê, olê", gritávamos todos, vencedores e perdedores, abraçados em direção ás escadas de nossos primeiros degraus pessoais e profissionais.

Pés, pernas e virilhas ao vento. Cresci com imagens inimagináveis, felizes retratos tortos na parede da minha memória. Andares mal-assombrados, elevadores amaldiçoados, mãos e línguas entrelaçando-se na mais pueril inocência. Gostava mais de estar ali do que em qualquer outro lugar. Ejetar de balanços e guerrear com almofadas nos recantos culturais mais férteis. Os primeiros acordes da minha infância soaram como metades de cocochocando-se umas contras as outras, atabaques e bongôs em roda. Triângulos dissonantes ainda ressoam nos meus ouvidos marcados por letras fortes e avançadas para minha mente...me pedindo consideração por mulheres alteradas e rosas inválidas.

E as cambalhotas salientes nos mini colchões azuis que brotavam das paredes proibidas. Essas mesmas paredes que enceravam, após a hora de aprendizado, todos os prazeres que o corpo de criança precisava para transcender. Na falta deles, qualquer objeto virava diversão. Carteirobol. Fui campeão, acertei olhos e narizes. Porradobol, idem.

E os amores? Amava sem preconceito. Amava a alegria de amar, de conviver, de tocar, cheirar, sentir pulsar o primeiro sintomas que hoje me fazem sonhar. O amor desta época é meu para eternidade. Todos os olhos azuis, verdes, brilhantes ou opacos, perversos ou lascivos. Todos corpos, desajeitados ou potentes, imprevisiveis ou expostos. Que grandes surpresas esses corpos me prepararam. E o meu próprio, levado ao limite em todas as situações. Suava e gargalhava como se morresse se não o fizesse até o último instante.

E hoje vejo todos aqueles rostos resplandecentes atrás dessa tela branca, leitosa...imprecisa. Vejo os cabelos negros do Milho, a envergadura plácida do Bernardo, as bochechas rosadas da Fernanda, as madeixas em caracóis da Helena, a tez de opala da Rosana.

Quem eram? Quem são? Não importa. Vale que existem como são em minha mente até a hora de acordar.

Minerva

29 de abril de 2008

A persistência do sorriso

Homúnculo assoberbado
Refém fiel de peito encaixotado
Companhia de quimeras
Pesadelo nas horas vagas

Espreme a angústia que te espeta
Dor lacinante do esteta
Perfeição ao seu lado inabalável
Imóvel e fria criação inalcançável

Briga em mim em veia e músculo
A esperança vã inesgotável
De acordar à aurora com teu ósculo
E dormir em teus braços no crepúsculo

E sonhar uma vida de cores
Tomando sua nuca de flores
Com mão firme a carne fria
E tua brutalidade macia
Pisoteia a esperança vazia
Flecha dura em dissabores

mas teus olhos que se esquivam
Tua armadura invisível
Hão um dia de se abrir
Pois não há medo que perdure
Nem solidão que se mature
Na persistência do sorriso

2 de abril de 2008

Terra Nova

Noite de insondáveis mistérios
Ès flor fechada em botão
És serena em tua ansiedade
Tempo que te foge às mãos

És fresta de luz, sorriso e soslaio
Olhos embotados, sorrateiros
Ès a cabeça baixa de Davi
Ao mesmo tempo que seu ar altaneiro

Quanto a mim, sou teu lacaio
Refém de teus suaves movimentos
És terra nova fecundada
Onde planto meus sentimentos

O ar que reverbera a tua volta
Chega em ondas e chacoalha minha vida
Abre para mim esse livro de ternura
Deixa-me tocar tua pele eternecida

Pois que, ao contar-te os méritos
És vitoriosa em sua calma
Coleciona estrelas como medalhas
E como troféu tens minha alma

Louros e um Viva! a ti
A teu silêncio me prendo
Insône em teus mistérios
Louco por teus segredos

13 de março de 2008

Presença Olímpica

Estende a mão, presença olímpica
e espalha em grãos sua doçura contida
um sorriso teu é um coração que pára
um olhar, outro dispara
uma estátua perfeita em pedra branca
uma luz singela e clara

Guardas teu raro perfume sob correntes de cetim
inalcançável como as estrelas do céu
És cofre forte de favos de mel
riqueza em rosa e jasmim

Quem terá a chave de tamanho mistério
o brilho desses olhos de Diana
cujo prêmio um toque, um beijo
ternura cativa que se apoderou de mim?

21 de abril de 2007

Atores

Nas noites longas
em que me escondo
dos meus sentimentos
ouço várias sombras
cantando nos escombros
do meu pensamento

E o seu cantar
ecoa por todo o infinito
atormentando minha alma
que em vão tenta escapar
do terror do meu grito
sufocado pela máscara da calma

ao meu lado, sem nada perceber
você dorme tranquila como criança
em seu semblante límpido posso ver
um "allegro" magnífico de algum teatro de França

Mas nos bordados da sua roupa
na intimidade do nosso sono
surgem laços de incompreensão
que nos separam sem querermos

E uma tristeza louca
me abate quando o último pano
se fecha, terminando a seção
e vejo que os atores somos nós mesmos

Sonho infinito

Sonhei contigo
um sonho insólito
um beijo
e tudo se acabou
palavras vãs
nas róseas manhãs
que se seguiram

Bela Maria

MARIA PASSAVA NA RUA
E PEGAVA TODOS OS TRENS
ESPERÁVAMOS MARIA NUA
OS PENSAMENTOS DOS HOMENS

MAS MARIA PASSAVA
E NEM LIGAVA
PARA OS HOMENS DA RUA
QUE A ESPERAVAM NUA

MASUM DIA ELA NÃO PASSOU
O MAIS APAIXONADO SE MATOU
NÃO PASSOU PORQUE CASOU
UM SENHOR ARREBATOU

ODIADO POR UNS E POR OUTROS ADMIRADO
POIS QUEM TERIA CONQUISTADO
QUEM REALMENTE FARIA
PALSAR O CORAÇÃO DA BELA MARIA?

Lucy's Breakfast

Lucy saiu de manhã
deixou pronto o café de sua irmã
Lucy foi viver sua vida
foi engolir sua juventude querida
Lucy foi atrás do destino
explorar o mundo a pente fino
Lucy quer morrer no mundo
atravessar o portão largo e profundo
Lucy quer experimentar coisas novas
quer viver poesias, romances e trovas
Lucy desistiu de ser igual
quer algo mais que ser normal
Lucy só quer ser feliz
quer mais que um quadro sujo de giz
Lucy foi embora, de vez foi embora
é, Lucy...talvez já estivesse na hora
A irmã de Lucy acordou
e como sempre tomou
seu café.

Poesia 11

Quam sabe ver no escuro das almas
quem vê no fundo das águas calmas
a verdade que todos querem
só os cegos podem perceber
o que os olhos não podem ver
e coraçõesrecebem o que merecem

Maré

Cadê o sorriso?
Cadê o tesão?
todos perdidos em ondas
de rádio e televisão
presságios do futuro
em letras do passado
runas inorgânicas
contam o novo dicionário
cartas na mesa e um bom jogo
divertimento, convívio e prazer
o que nos resta desta vida
senão nos gozar
aproveitar as coisas que temos para compartilhar
o riso, o sonho, o dia após dia
o som, o instrumento, a fonte de alegria
escuro ou claro
não importa o céu
vamos bribncar: eu represento,
você é o menestrel
pureza no convívio, nada
a esconder
rimas de cor
novenas a fazer
os pecados são muitos
mas não há porque guardá-los
já que o futuro não nos espera
um dia que morre
um dia que dorme
é menos um a ser aproveitado
o sono, inimigo da diversão
obstáculo eterno
de nossa reunião
os casais se formam e
não se entendem, pois
é o divertimento que
pretendem os atrapalha
atrapalha a rotina
o day-by-day
ao alcance das mãos
mas o convívio, o sonho
pemanecem vivos
uivo no silêncio dos beijos
estalos solitários na noite
que só vislumbra o todo
o som, o riso, a taverna
sou medieval, tenho certeza
não me agrada tanto mais a pureza
medieval do século xxi
será que além de mim há mais algum?
me prendo ao amor
mas tenho saudade de saga
provo a doce e quero a amarga
tenho todo e não tenho nenhum
sou medieval do século xxi
o dragão adormeceu
pela rede
o mistério, a bruma
desecarnou
sou o frio, o sozinho
o hermético filisteu
crio meus amigos, meus sonhos
minha dor
e não sinto falta de nenhum
sou medieval do século xxi
a madeira se fez plástico
as cordas se fizeram tecla
perdido na multidão de opções
faz-se só e sem assecla
perde-se, e o sozinho
é o Rei
nu ou vestido
feio ou pobre eu não sei
mas sinto falta do contato
da criatividade de outros tempos
cadê os filósofos e os poetas?
perdidos nas teias e redes do presente
me sinto ás fronteiras de Cafarnaum
sou medieval do século xxi
a poesia corre em mim
mas, de tantos atalhos,
ela não sai
nos esquecemos da pena e do papiro
vivemos somente o tédio e o suspiro
não temos mais sonho algum
sou medieval do século xxi
não entendo acordes
ou poesia concreta
nada mais me guia
cursor, rato ou seta
flutuo no meio da imensidão azul
sou medieval do século xi
não há mais cidades ou países qie me pertencem
se acendem traços de seios no futuro
recortes e contornos obscuros
que fase cruel, o envelhecer
o que virei a conhecer
pouco importa
já está obsoleto por definição
tudo nasce obsoleto
até que a rima nos separe
crise entre tantos
a decadência da personalidade
a procura de um ser total
só na imaginação
enquanto rola o simples,
o complexo se agita e clama por atenção
como um soberano
parem todos: o complexo é melhor!
o simples se recolhe ao pensamento
e se manifesta no riso, no som e na poesia
Cria! Cria! Cria! E não lê!
ser não, não há continuidade
as paredes não têm olhos e não enxergam no escuro
nada restará para sempre
mais puro
hoje é o sempre
e a eternidade é o minuto que passou
agarre-o e o sono que durma
deixe entrar dentro de ti
as características que você acha que tem
deixe o som entorpecer
e a companhia te enebriar
larga a dureza do mundo e se deixe levar
feche os olhos e surrealize
tantas ferramentas
tantos ângulos retos
deixe as curvas e os objetos cortantes sobressaírem
o som, a alma, a vida
viva e ouça: o coração
é o som que nos mantém vivos

O Mundo Sentou

Mas que saudado do frio
da dicotomia muda e burra
agora só há inteligência
há tempos o frio é feito de sangue
corria em nossas veias a
possibilidade
a ânsia de quintessência
havia caras e símbolos
e as pessoas andavam
uma eminência escura
trevestida de um grande clarão

E o clarão iluminava
a todos, indistintamente
seria nossa redenção
mas tudo fundiu-se e
uma enorme burrice
se passa por real
nem mais ânsia do
vômito redentor nós temos
sentados, vemos o mundo
brincar
o mundo parou

ao mesmo tempo que
tudo acontece
o mundo sentou
e se esconde
andando para frente
quanto mais as coisas
surgem, mais ficamos
na mesma
quanto maiores as possibili-
dades, mais chances
temos de nos
imobilizar

Ego camaleão

Quando me perguntarem: "quem você é?"
Responderei:
"Sou o Ego Camaleão"

Quando me perguntarem: "o que você é?"
Responderei:
"Sou um livro escrito por 70 vezes 7 mãos além das minhas"

Quando me perguntarem: "de onde você vem?"
Responderei:
"Da mais profícua e caótica multidão"

E quando me perguntarem: "para onde você vai?"
Reponderei:
"Espalhar pólen nas ervas-daninhas"

Quando me perguntarem: "és mortal?"
Responderei:
"Como tudo que toca o ar"

Quando me perguntarem: "do que és feito?"
Responderei:
"Do teu suspiro e da tua lágrima"

Quando me perguntarem: "o que pretende?"
Responderei:
"Levitar"

E quando me perguntarem: "o quer de mim?"
Responderei:
"Um sorriso e um abraço
uma estória, passo-a-passo"

E por fim me calarei.

Poesia 9

Foge, paixão perdida
este terreno é infértil
não olhe a alma dividida
que se fantasia de estéril

Fecha esses braços calorosos
sedução vazia
escureça essas promessas que atormentam
noite e dia

Respira esse ar pesado de culpa
uma tonelada do lado esquerdo
manca, perfeito enganado
nem consumado em volúpia

Que lábios, que olhos permanecem
os que querem e os que deveriam
torce o pano e ele chora negro
a dor de um destino não cumprido

Soluça então no meio da vaga esperança
uma oportunidade basta
como um sopro num castelo de cartas
para transformar uma mulher numa criança

Poesia 8

Assossega, alma peregrina
Assenta-te nesse ninho pacífico
ignora o que a mente maquina
aventura é sacrifício

Amarra essas asas de condor
contenta-te por tua sorte
por todo lado tens amor
dedicação a demarrar do pote

Portanto cala-te, coração errante
sufoca em ti a bestialidade
o mindo se fecha nesse instante
para seus desejos de crueldade

Próximo passo é capar-te a plumagem
lágrimas do peito oprimido
goze os louros conquistados
engole a frágil coragem

Poesia 7

Toquem as liras angélicas
o bardo gago chegou
sua genialidade seja aplaudida
a expectativa acabou
Abram-se as cortinas, foco no bardo
peito estufado, barbeado e perfumado
sobe ao palco, hesitante
limpa a garganta no púlpito
A glória num instante
e já passou. O bardo gago cumpre seu destino
começou bem, palavras simples
mas o cacófato escondido apareceu
E o desastre se seguiu, o bardo gago caiu
da majestade
De joelhos ao chão, lágrimas pretas
o basdo se levanta e ajeita o gibão
inclina a cartola, gorgoleja abafado
pelas risadas e se retira.

Poesia 6

Nascido em plena orgia
primeiro dia de Carnaval
enterro no peito a semente
sou só um doente, não sou todo mal

Do teu sonho sigo a trilha
uma milha atrás do teu ideal
sou uma estrela cadente
um recipiente, teu santo Graal

De mim farás teu caminho
escolhe sozinho o que queres de mim
tens nas mãos a corrente
pensamento potente para além do meu fim

Cumpri minha parte no trato
e agora me parto, erro a corrigir
agora sede clemente
germinai a semente, deixe florir

No fim, todos ganhamos
se nos encontramos nesse presente
basta a ti perdoar-me
e a mim encontrar-me até meu poente

10 de julho de 2006

Poesia 5

Dentro da concha, uma íris reluzente de sorriso
Cílios longos, arqueados
Abrindo as portas dos sonhos fechados

Verde, tudo é proibido
Azul, mais valioso
Castanho, lânguido, pervertido
Negro, véu misterioso

Tremo lá dentro da alma
suo frio, fico fraco
uma pinça em meu desejo
Fraquejo, vejo opaco

E me sobe ânsia de beijo
Que deixo enclausurado
num sorriso torto, afetado
Um vazio dentro do peito

Que jóia é essa e que lábios
que dourado emoldurado
Que sórdido toque do mundo te mantém engaiolado
enquanto o suave que encanta, voa leve, libertado?

Poesia 4

Suaves braços me embalam
num leito de flores, perfume
Rasgo riso, colore
a vida serena nos une

Sob esse sol marinho
ou na noite escondido
Prenda a rede em coqueiro
e descanso do meu caminho

Lírio, acalmo no ato
Margaridas pelo campo
um buquê no meio do asfalto
que justifica meu canto

Ai de mim que cultivo
com suor e terra nova
um ilusionista ativo
um sonho a toda prova

10 de dezembro de 2005

Lanis e Maia

Um dia a mais na vida campestre
Repleto de luz e fruta silvestre
O brilho fugaz do orvalho no campo
Dissipa da relva verde seu manto

Maia acorda, se levanta e sai
Saltitante, o amor a atrai
Respira fundo o frescor da manhã
E esquece da mãe, do pai e da irmã

- Vai ver seu amado
Pensa a mãe num suspiro abafado
- Volte cedo - cenho fechado
diz o pai zeloso, preocupado

Pela campina, Maia corre e sorri
- Lanis me espera - pensa para si

Ele, forte e bravo guerreiro,
Volta do front saudável e inteiro
Enquanto galopa veloz pela estrada
Ela corre no campo apaixonada

Se avistam ao longe e o tempo pára
Como um raio, o alazão dispara
Se encontram num beijo, exorcizam a saudade
Se encaixam, completam duas metades

Se setam na relva e contam estórias
sobre colheitas, flores, noites e glórias
Seus olhos chamuscam de realização
Marcado a fogo, fogo da paixão

Formosa Maiae belo Lanis
Se amam à tarde, como nunca antes
E chega o crepúsculo, vermelho e azul
Ele deve partir, de volta para o Sul

A batalha o chama, o dever é herdado
Descendência de nobre, este é seu legado
Como escudeira ela acerta o arreio
Arruma a cela e afrouxa o freio

Escudo, espada, armadura ela apronta
Seu amado guerreiro, completo enfim, monta
E parte na dúvida - talvez voltará
Ela geme e chora - Eu aqui, ele lá!

A noite cai em despedida
A Lua se esconde, arrempendida
Não poderia mais um pouco ficar?
Horas de amantes custam tanto a chegar...

Ela o segue com os olhos pela estrada
Até a escuridado não eixar ver mais nada
Então se resigna e segue para casa
Já com saudades de seu anjo sem asa

Logo adormece em sonhos felizes
Um turbilhão de desejo e um milhão de matizes
Sonha colorido a volta do amado
que está longe, mas sempre ao seu lado

Já acorda com um sorriso no peito
Contando as horas para encontrar seu eleito
Inesperado...ninguém em casa
Machado no chão, panela na brasa
A ausência de todos lhe atormenta o coração
Que se aperta ao ver o jáz sobre o o chão
Cena de horror logo pela manhã
Três rostos conhecidos: pai, mãe e irmã

Desconsolada, ela grita de aflição
Esperneia, berra, procura explicação
E a figura sinistra surge do nada
O vermelho do sangue ainda tinge sua espada

- Teu amado é inimigo! Tu trarás ele para mim
Diz o cruel assassino, exímio espadachim
- Nunca! - grita a bela Maia, resoluta
E parte para avisar Lanis da luta

Atrás dela corria o malvado
Seguindo seus passos no descampado
Então na campina ela chega e o vê
Como sempre cansado e feliz de viver

Ele abre um sorriso, meio incerto pois Maia
Suja de sangue, de repente desmaia
Ele corre em socorro, mas se contém
Pois entende que ao seu encontro vem
O vulto escuro, a sombra esperada
Sem pensar duas vezes, Lanis brandi a espada

Se segue então uma batalha feroz
Entre Lanis, o belo guerreiro e seu algoz
Seu adversário tem a espada veloz
E desfere sobre Lanis a ferroada atroz

E o tempo parece parar
Os ferimentos parecem sarar
Os olhos dos amantes se encontram num suspiro final
Antes que o inimigo desferisse o golpe mortal

A ternura desta hora nunca será superada
Lanis, o guerreiro amante e Maia, sua amada
Os dois tiveram a mesma sorte
Morrer no leito do amor
Amar no leito de morte
E num só golpe lhes foi tirada a vida
Belo Lanis e formosa Maia
Amor e morte na despedida.

24 de julho de 2005

Poesia 3

Cria neutra, sem pai, sem mãe
Vaga nos caminhos do tempo
Entra nas vielas do vento
e traz mais um para o clã

Ouça suas palavras com desdém
Aproxime-se de mansinho
Toma-lhe a vida por bem
como a trocar um carinho

Crava-lhe, cria, ao crepúsculo
E faz o vermelho sorrir
Contrai em vão os seus músculos
com a ilusão de cair

Deixa-o então ao léu
Limpa-te no feltro
O encarregado agora é o céu
de criar mais um neutro

Poesia 2

Rompe a madrugada a incerteza
Nua em seu cavalo branco e
de coxas firmes
Ela passeia ilesa por entre os meandros do meu pensamento
Me inspira, musa libra, me faz
pensar e fazer minhas escolhas
Faz-me parar de vagar à procura da aurora
como outrora já o fizeste
Cala minhas mãos como já o fez
Venda meus olhos e dedos solitários
Venda meu prazer a preços módicos como estrume no interior
Prostitua minha mente com a sua luz

Poesia 1

É noite e o sangue corre
Dentro desta veia pulsante de emoção
Louco por jorrar, azul
na imensidão de pontos brancos
Neste universo invertido onde
o que brilha é o escuro
Tudo que é não-branco
Passo e apenas ligo os pontos importantes
Apenas destaco as linhas que devem sobressair
Cada folha pede para dizer alguma coisa
Apenas contorno
Nada mais é meu! É tudo papel!
A ansiedade de expandir-se me obriga a fazê-lo
"Risca-me de olhos fechados" - diz o bloco